Opinião: Um Dia Esta Dor Vai Ser Útil | Peter Cameron

SINOPSE: Um Dia Esta Dor Vai Ser Útil é a história de um rapaz sofisticado e vulnerável com um grande apreço pelo mundo, mas sem a menor ideia de como viver nele. James tem 18 anos, é filho de pais divorciados. Eloquente, sensível e cínico, rejeita as presunções que orientam o mundo adulto que o rodeia - incluindo a expectativa de que irá para a universidade no outono seguinte.

Por ele, mudar-se-ia para uma casa antiga numa cidade pequena do Midwest. Um Dia Esta Dor Vai Ser Útil passa-se durante uns dias abrasadores de verão. Ao mesmo tempo que faz confidências à sua compreensiva avó, James boicota uma psicóloga astuta, lamenta a sua irmã pretensiosa e cria uma identidade falsa online para poder avançar com o fraquinho que sente por alguém próximo.

Uma poderosa história de quem questiona o tempo, a família, o mundo e a si próprio.

Eis um dos livros mais estrambólicos e psicologicamente perturbadores que já li. Não o digo num sentido depreciativo, mas pura e simplesmente perturbador. 

James, a personagem principal, um jovem de 18 anos, bem na vida e mimado, mas com uma família disfuncional. Não sabe o que quer na vida, não sabe quem é, nem para onde quer ir. É uma personagem estupidamente desconcertante, perturbado, sociopata, mal educado, egocêntrico, inconsiderado, que se deixa vergar pela autopiedade - de uma forma algo enjoativa - presunçoso e esmagadoramente exasperante!

Tive de ir lendo este livro aos poucos e poucos para conseguir suportar a sua personalidade. Durante a narrativa, em que ele se apresenta no consultório de uma psicóloga - também ela um bocado marada - a história vai intercalando entre o passado e o presente de James, o seu ponto de vista sobre a sua vida e  família - também marada -, aqui não escapa nenhum: até o cão é algo marado!

Esgotante. Mas claro, todos e cada um de nós podemos - e provavelmente vamos - identificar-nos com alguns aspectos da personalidade do James, ou com algumas das personagens aqui presentes. De certo modo, a narrativa faz como que sintamos que estamos a olhar para um espelho constrangedor, mas apesar de tudo compreendo esta personagem, em alguns aspectos compreendo até bem demais...

Esta não é uma leitura leve, é uma leitura psicologicamente perturbadora, é um drama pessoal e familiar disfuncional, mas sem dúvida fascinante.

O maior traço que partilho com esta personagem é o seu desgosto ao chegar à tão ansiosa idade adulta, e constatar que "ser adulto" não é nada do que pensávamos... os adultos continuam a ser uma data de miúdos mal computados, revoltados com a vida e subjugados pelas responsabilidades, pressão social e contas para pagar. Não é nada como imaginava...

Acima de tudo, a permissa da narrativa foca-se  na depressão, o estado depressivo em que James e algumas das outras personagens se encontram, a extrema insatisfação com a vida, o anseio por algo mais, mesmo quando não sabemos sequer o que esse "mais" é... a depressão ainda não é socialmente aceitável, é como um monstro feio, apesar de toda a gente - a dada altura na vida - sofrer de algum tipo de estado depressivo, temporário e ligeiro, muito grave e/ou vários estádios pelo meio, pois toda a gente do mundo já se sentiu de alguma forma deprimido, e no entanto é algo tão desprezado e pouco tolerado...




Acredito plenamente que, enquanto assim for, a humanidade vai continuar a trilhar por maus caminhos, enquanto ignorarmos desta forma este mal que a todos afecta: ricos, pobres, famosos, incógnitos, pessoas traumatizadas ou mesmo sem quais queres tipo de traumas ou problemas de maior.

Qualquer pessoa de qualquer idade pode dar por si amargurada com a vida e em diversos estados de tristeza e depressão, e muitas vezes acontece que a própria pessoa afectada nem se dá conta do real estado em que está... vivemos numa sociedade em total desconsideração pelos oprimidos pela depressão...

A própria evolução de passar a fase adolescente para adulto é já por si um evento desconcertante, só o acto de nascermos, o nosso primeiro suspiro no mundo depois de sairmos do ventre das nossas mães é um grande trauma, por isso, porque tem a sociedade uma visão tão tendenciosa sobre a depressão?

O que é ser adulto? Não é uma idade, pois a idade é um número e a infância, adolescência e maioridade é definida pela sociedade. Não deixa de ser uma data, não um estado de espírito. É apenas um registo, uma formalização. E o que é verdadeiramente ser feliz? O que estamos cá a fazer, qual o propósito das nossas vidas?

Quem somos na realidade? Será que nos conhecemos verdadeiramente? Se muitas vezes nem nos conhecemos a nós próprios, quanto mais conhecer os outros que nos rodeiam.... creio que a humanidade está a evoluir demasiado depressa para os padrões normais da natureza, somos cada vez mais e mais e mais, a evolução cientifica, informática, social, política e económica é vertiginosa, de uma forma contranatura, implosiva, e ser um simples ser humano é cada vez mais difícil e psicologicamente esmagador.

Uma leitura introspectiva e psicologicamente fascinante.

👉🏻 Wook | Bertrand 👈🏻

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