Opinião: A Devoradora de Pecados | Megan Campisi

Romance sombrio que mistura o folclore inglês com o poder feminino.
A devoradora de pecados caminha entre nós, Ninguém a vê, ninguém a ouve.
Os pecados da nossa carne tornam-se nos seus pecados, Seguem-na até à cova.
SINOPSE: Pelo crime de roubar pão, a jovem May recebe uma sentença para a vida: deve tornar-se numa Devoradora de Pecados – uma mulher proscrita, brutalmente marcada, cujo destino é ouvir a confissão final dos moribundos, ingerir alimentos que simbolizam os seus pecados como rito funerário e assim acolher as suas transgressões para conceder às suas almas acesso ao céu.

Órfã e sem amigos, aprendiza de uma Devoradora de Pecados com quem não pode falar, May tem de trilhar o seu caminho num mundo cruel e perigoso que não compreende. Quando um coração de veado aparece na urna de um moribundo que não confessou o pecado mortal que o alimento representa, a Devoradora de Pecados recusa-se a ingeri-lo. É levada para a prisão, torturada e morta. Para vingar a sua morte, May terá de descobrir os responsáveis por uma ameaça que nas sombras põe em perigo o futuro de uma nação.

Esta história não é NADA do que eu estava à espera, estava à espera de algo mais sobrenatural e... não sei... diferente. Não estava à espera de um drama medieval mórbido, carregado de crítica social e tão desumano e carregado de intrigas entre realeza e uma conotação religiosa tão pungente que toda a narrativa transmite um certo mau estar, deixa-nos pouco à vontade por pertencermos à raça humana, ...

Apesar de a capa ser tão linda e frutal, May, a incrível personagem principal, feminina e fora de série para a sua época, a nova devoradora de pecados, come quase tudo menos frutas e vegetais... sendo a vegan que sou, não apreciei particularmente as descrições vividas de que quase tudo o que May tinha de comer, venha tudo de alguma forma da exploração animal ao máximo - no entanto, sendo o contexto histórico em que está inserida a história, é normal, tenho isso em consideração... - mas chega mesmo exageradamente ao ponto de comer corações, fígados, cérebros (!) e outras partes de uma variedade enorme de animais, até macacos e cisnes, entre tantos outros, ou seja: nenhum escapa ali. Quase todos os alimentos que existem simbolizam um pecado, especialmente as entranhas dos animais, mas também surgem sementes e legumes, no entanto já nem me lembro se aparece alguma fruta - sendo o maça um símbolo de pecado, fazia sentido ter aparecido, todos os alimentos servem para qualquer tipo de pecado, desde o pecado mais inofensivo aos pecados verdadeiramente desumanos, naqueles tempos até respirar era pecado, até para funerais para nado-mortos havia a cerimónia para comer um alimento que simboliza um pecado...

No entanto, com o avançar da história, e com uma escrita tão original e fluída, e uma personagem feminina, jovem e tão corajosa e cativante, lá dei por mim embrenhada na história e acabei a investigar em que é que se baseava toda esta narrativa, e descobri que este drama histórico foi baseado num ritual que terá sido praticado nalgumas partes da Inglaterra e Escócia, e supostamente persistiu até final do século XIX ou início do século XX no País de Gales e os adjacentes Welsh Marches de Shropshire e Herefordshire, bem como certas partes da Appalachia na América. 

Segundo as palavras da autora, numa entrevista para a revista Activa, que podem ler aqui: "Há uma ressonância importante na história entre a rainha Bethany [inspirada em Isabel II] e May [inspirada em Maria Stuart]: uma é uma mulher poderosa e a outra impotente, mas ambas lutam numa sociedade patriarcal. Devorar um pecado é um misterioso ritual funerário que existia em partes do País de Gales, no qual um pária social comia um pedaço de pão do caixão ou mortalha funerária para absolver os mortos dos seus pecados, em troca de um pequeno pagamento. Depois de comer, acreditava-se que o devorador de pecados carregava os pecados dos mortos na sua própria alma. Nenhuma das combinações de comida que fiz existia no folclore – apenas o pão era tradicionalmente ingerido. Para criar os pares de comida, li livros de receitas da época Tudor, mas também deixei a minha imaginação fazer algum trabalho."




Mas não era com isto que eu estava a contar quando iniciei a leitura, por isso, até meio do livro estava a ser uma leitura estranha como o diabo! Depois comecei a apreciar a crítica social adjacente e o poderio feminino aqui presente, em várias personagens, e depois por mim a apreciar a leitura no seu todo - menos a parte nojenta do comer, mas até essa parte achei fascinante a forma como a autora inventou a associação de um pecado especifico a um alimento especifico, muito interessante.

Gostei da originalidade do enredo, contado na primeira pessoa através da perspectiva da May, de uma forma extremamente honesta, adorei a crítica à opressão religiosa, a forma como é usada para controlar massas e usada para guerras de poder e controlo, gostei do desfecho, e apesar de por vezes a leitura ser algo repetitiva e não ter sido o que eu estava à espera, apreciei a narrativa, e estou muito curiosa com futuros livros da autora.

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