Opinião: Instinto | Ashley Audrain

Uma mãe. Uma filha. Uma história com duas faces. Um thriller psicológico tenso e viciante.
SINOPSE: Blythe Connor está determinada a ser a mãe afectuosa e solidária que nunca teve. No entanto, no auge dos esgotantes primeiros dias de maternidade, Blythe convence-se de que alguma coisa não está bem com Violet.

Com o passar do tempo, a sensação agrava-se: a filha é distante, rejeita o afecto e revela-se cada vez mais perturbadora. Ou estará tudo apenas na cabeça de Blythe?

O marido diz que ela está a imaginar coisas. Quanto mais Fox ignora os seus receios, mais ela se questiona sobre a sua própria sanidade mental.

Quando nasce o filho mais novo, tudo parece melhorar: Blythe sente com Sam a ligação que sempre imaginou; Violet acalma e parece adorar o irmão mais novo.

Mas, de repente, tudo muda e Blythe não poderá mais ignorar a verdade sobre o seu passado e sobre a sua filha. Onde está a verdade quando tudo tem duas caras?

Lembro-me perfeitamente, ainda era eu adolescente, de a minha mãe me perguntar se eu iria querer ter filhos. Perguntei porque raio me perguntava ela aquilo, sendo eu adolescente, e ela disse que era por curiosidade. Lembro-me de ter dito, com bastante convicção, que não, não desejava ter filhos. Porquê? Não tinha desejo nenhum de tal. Ao que ela disse que quando eu fosse mais velha o meu "relógio biológico" iria começar a funcionar e eu iria mudar de ideias. Já tivemos esta conversa várias vezes, até já lhe disse que se tenho relógio biológico, então veio sem pilhas, pois continuava sem sentir essa necessidade, e agora no alto dos meus 33 anos e chegado o ponto em que já tive de me chatear a sério com estas conversas, nem ela nem ninguém da minha família me perguntam isso.

Nunca se deve dizer nunca, eu não sei as voltas que a vida dá, nem sei sequer o que vou comer hoje ao almoço, mas pelo menos no momento em que escrevo estas palavras e todos os momentos anteriores a este a convicção que sinto relativamente ao facto de eu não querer viver a experiência de ser mãe é bastante pujante. Não quero. Não sinto que tenha esse dever. Não sinto que tenha essa vontade. Não tenho essa obrigação, não assinei nenhum contracto e a ideia de ser mãe enche-me de uma ansiedade e terror absolutos. Durante a minha vida, tive várias vezes pesadelos nos quais engravidava e acordava cheia de pânico, com o coração a parecer que ia rebentar, a transpirar e por vezes até a chorar.

Eu tenho uma boa mãe, uma excelente mãe, isto que eu sinto não é trauma familiar nenhum nem nada do género, é pura e simplesmente a minha personalidade e os meus sentimentos, não sinto essa necessidade, não quero. Admiro imenso quem o é, e quem o deseja ser, pois ser mãe é dos maiores feitos que existe, no entanto, conforme vemos no mundo, há muita gente que o é sem querer ser, por pressão familiar ou social, e depois temos a sociedade cheia de crianças e adultos desequilibrados...  casos em que os filhos em vez de serem um complemento, parte da existência das mães, suprimem a sua existência... mulheres que deixam de ser a mulher x, para passar a ser a mãe do/da x, abdicam dos seus sonhos e objectivos, empregos e individualidade, é como se fossem totalmente obliteradas enquanto indivíduos ... é como se fossem divididas, nunca mais serão apenas a pessoa que sempre foram, mas sim a mãe de alguém, vivendo sempre com o coração nas mãos de que aconteça alguma coisa aos seus filhos, uma preocupação constante e é um amor extremamente ingrato a maior parte das vezes...

No pior dos casos, têm filhos que serão o seu maior desgosto: psicopatas, assassinos, sociopatas, intriguistas, mesquinhos, até mesmo os filhos que matam os pais, e os pais que matam os filhos, ... ser mãe não é só deitar cá para fora uma criatura com o nosso adn, é uma responsabilidade tremenda que a mim não me assiste. Até já ponderei, um dia, talvez, adoptar uma criança, quem sabe? Disso talvez eu já fosse capaz - e mesmo assim... -, mas ter uma criança minha não quero, só de me imaginar grávida e o parto entro em pânico. 

E os que dizem: "quando tiveres um filho vais ver que não queres outra coisa...", "olha que depois quando não poderes ter ainda te arrependes... etc... etc..." talvez sim, talvez não, mas se eu digo que não quero, é porque não quero. Ponto. E não vou andar a emprenhar para fazer a vontade a outros, muito menos vou ter filhos para "teres quem cuide de ti quando envelheceres". Há prestadores de serviços para isso, e a quem diz que: "assim é uma forma de o meu adn continuar na terra depois de desapareceres": primeiro nada garante isso, e depois eu já estou a fazer a minha parte no mundo, a partilhar-me e a fazer a diferença e isso para mim é o suficiente.




Com isto tudo tenho a dizer que adorei a absoluta honestidade com que este livro foi escrito, sem tabus, é uma leitura honesta, verdadeira e chocante.  Ainda vivemos num estigma social enorme, em que a sociedade julga cruelmente uma mulher que não queira ter filhos, como se houvesse algo de erado com ela, as mães sentem-se culpadas quando têm pensamentos - em dias muito difíceis - que estão arrependidas de terem dado à luz, martirizam-me por terem pensamentos fugazes, uma vez ou outra, de que odeiam os seus filhos, porquê? Porque a sociedade assim impinge. A sociedade, livros, filmes, séries, teatro, músicas, tudo dá a entender que quando uma mãe é mãe, nunca mais será outra coisa na vida e tem de amar incondicionalmente os seus filhos 24 horas por dia, 7 dias por semana. Se os filhos não sentem isso, porque haveriam as mães ou pais de o fazer? Quantos filhos existem à face da terra que nunca tenham odiado os seus pais nem que tivesse sido por um segundo? Não quer dizer que não haja amor incondicional, claro que o há, é mais forte do que nós, mas somos acima de tudo, humanos, e a sociedade quer a toda a força fazer de conta que o ser humano é perfeito e não o animal da raça homo sapiens que é. Como se uma mãe, depois de ser mãe, nada mais pode ser na vida que não ser mãe.... felizmente, aos poucos e poucos este estigma está a desaparecer, cada vez mais há mais mães solteiras, mães com empregos de sucesso, mães homossexuais, todo o tipo de maravilhosas mães! Ser mãe é um paradoxo de amor e ódio...

Esta leitura amachucou-me toda por dentro, revirou-me as entranhas, li em poucas horas pois pura e simplesmente não conseguia parar de ler, ler este livro é como estar a assistir a um brutal acidente que está a acontecer à nossa frente, queremos desviar o olhar, mas não conseguimos...

Ao contrário do que a sinopse dá a entender, este livro não é só uma história de mãe e filha, mas sim de mães e filhas, mais propriamente quatro gerações de mães e filhas, um drama familiar intrínseco que nos abana e sacode, temos uma parte da história da bisavó, da avó, da mãe e da filha. Se eu que não tenho qualquer tipo de vontade de ser mãe fui tremendamente sacudida por esta leitura, quem o é ou quer ser ainda a vai sentir estes abalos mais intensamente, é quase como se fosse um livro de terror para mães, mas também uma lufada de ar fresco para as que se vão identificar com alguns aspectos desta leitura, ao sentirem que não são as únicas co certos e determinados pensamentos, que são mães, sim, mas são, acima de tudo, humanas, mulheres e que o instinto maternal é algo que deve ser tido seriamente em conta.

👉🏻 Wook | Bertrand 👈🏻

2 comentários:

  1. As tuas palavras parecem as minhas palavras, sentimento semelhante, luta quase diária e o desejo de não ser Mãe mantêm-se é não sou menos Mulher do que as que são Mães, apesar de o tentar fazer com que me sinta assim. Para esses pessoas tenho uma palavra mas não a vou escrever aqui 😉.
    Quanto ao livro, com esta opinião fiquei muito tentada em comprar nos próximos tempos. Obrigada por mais uma excelente sugestão

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