Opinião: A dança das estrelas | Emma Donoghue

No cenário da mortífera gripe espanhola, uma história de esperança e sobrevivência contra todas as expectativas
SINOPSE: Dublin, 1918. Numa Irlanda duplamente devastada pela guerra e doenças, a enfermeira Julia Power trabalha num hospital sobrelotado e com falta de pessoal, onde grávidas que contraíram uma gripe desconhecida são colocadas em quarentena. Neste contexto já bastante difícil de gerir, Julia terá ainda de lidar com duas mulheres enigmáticas: a Dra. Kathleen Lynn, procurada pela polícia por ser uma líder revolucionária do Sinn Féin, e uma jovem ajudante voluntária sem experiência de enfermagem, Bridie Sweeney.

É numa enfermaria minúscula, escura e sem condições, que estas mulheres vão lutar contra uma pandemia desconhecida, perder pacientes, mas também trazer novas vidas ao mundo. No meio da devastação, histórias de amor e humanidade no dia a dia de mães e cuidadoras que, de várias formas, acabam por cumprir missões quase impossíveis.

Esta história entranhou-se em mim de tal maneira, que momentos após ter terminado a leitura - o que não me levou mais do que umas seis horas para ler o livro todo - nem sabia o que fazer comigo.... emocionou-me, arrepiou-me, fez-me sorrir, fez-me sofrer, houve até certas partes que me deixaram mal disposta - está mais do que provado que não dou para médica/enfermeira nem nada parecido - esta leitura foi um brutal misto de emoções descontroladas...





Esta narrativa tem pontos que supostamente nem sequer combinam comigo: é passada quase toda no mesmo lugar - uma ala minúscula com apenas três camas para grávidas, num hospital no centro de Dublin sobrelotado a entrar em colapso pela influenza de 1918, as poucas grávidas dessa minúscula ala estão infectadas pela doença, nãos sou propriamente fã de dramas médicos, gosto de grandes espaços temporais, muitas paisagens e de uma boa mistura de personagens... aqui contamos apenas com a enfermeira Julia, a sua nova ajudante Bridie, a fabulosa Dr. Lynn, e poucas mais personagens, esta narrativa passa-se num espaço de apenas três dias! 




Esta história se tiver umas 10 personagens é muito, mas, apesar de tudo.... é uma das leituras mais intensas que já li na minha vida! E as personagens!... Uau.... cada uma vale por cinco! As suas histórias de vida são fascinantes, adoro Dublin, adoro os irlandeses, adoro o facto de cada personagem ter uma história muito intrincada, da narrativa explorar de forma tão profunda e intima o que é ser enfermeira - uma brutal homenagem a estes profissionais maravilhosos - fascinou-me a forma honesta como explorou os abusos ocorridos em orfanatos geridos por freiras, os traumas psicológicos dos combatentes da guerra mundial, e até toca na temática da LGBT, o que me surpreendeu muito para uma leitura de época, onde raramente ou nunca esta faceta é explorada, e até expõe opinião políticas sobre a Revolta da Páscoa irlandesa ou seja: pode passar-se num espaço pequeno, num curto espaço de tempo, diferente do que estou habituada, mas não falta nada a esta arrebatadora leitura! E outra coisa que me fascinou completamente nesta leitura foi o facto de ser tão realista nos contextos de enfermagem, que fui investigar se por acaso a autora era enfermeira, pois parece que são mesmo as memórias de quem por aquilo passou. Absolutamente fabuloso!





Sabiam que a influenza/pneumónica, mas mais conhecida por gripe espanhola assim ficou mundialmente conhecida porque: enquanto a comunicação social da Alemanha, Reino Unido, Estados Unidos, França, etc, estavam a ser controlados para minimizar o impacto da pandemia para não espalhar o pânico pelo povo - devido à guerra, já tinham pânico e problemas de sobra - a Espanha, neutra na guerra mundial - explorava imenso a pandemia, e então noutros países, para saberem mais sobre a pandemia que os seus governos teimavam em minimizar, o povo começou a ler os jornais e folhetos espanhóis. No entanto, foi ficando assim também a ideia de que Espanha era o país mais atingido pela doença, por ser o que mais falava da pandemia e então começou a ser conhecida como "gripe espanhola" - apesar de ter tido alegada origem na China ou Estados Unidos - este último o mais provável - e ter sido originada pela agropecuária em rápida e abusiva expansão num cruzamento de vírus aviário e suíno ... 



E não só este drama médico-histórico me arrebatou pela sua imensa intensidade e realismo, como o facto de ler um livro sobre uma pandemia tão parecida com aquela que estamos a viver torna esta leitura verdadeiramente arrepiante e vertiginosa... Uma narrativa viciante, arrebatadora, realista, com personagens femininas fascinantes, adorei, adorei, adorei!

👉🏻 Wook | Bertrand 

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